O QUARTO SECRETO E A ESTÁTUA DE MÁRMORE!
Era uma vez uma família que alugou uma casa linda, simples, mas muito confortável. A condição para aquele preço excepcional foi não usarem um quarto, que estaria sempre trancado. Como eles não iriam mesmo precisar daquele quarto, acharam o acordo perfeito.
O tempo foi passando e a família feliz com a casa, mas, a
cada dia, depois de algum tempo, crescia a curiosidade sobre o que conteria
aquele quarto. O dono nunca mencionou e eles não acharam conveniente perguntar.
Então, quando uma visita perguntou do quarto, após a família
mostrar a bela casa, eles apenas responderam que conseguiram aquela casa por
aquele preço em função de deixar o quarto trancado.
Nisso, um membro da visita questionou:
- Mas, vocês nunca quiseram saber o que ele contém?
A família:
- Não. Quer dizer, no início não, mas aos poucos estamos todos
ficando curiosos, só não sabemos como perguntar ao dono, quando surgir a
oportunidade.
Um dia então o dono estava por perto, e decidiu fazer uma visita
surpresa num final de semana chuvoso.
A família ficou feliz e ofereceu um café e iniciaram uma
conversa trivial sobre o tempo e a vida em geral.
Nisso, a menina da Família, de uns 13 anos, como toda
adolescente, ou quase todas, mais atrevida, perguntou à queima-roupa:
- Sabe Sr. Dono (todos riram), a gente começou a ficar
curiosa sobre o que o quarto trancado guarda?
O Dono riu da pergunta e de como ela o tratou e falou:
- Nada demais minha filha. Apenas algumas coisas preciosas,
que não pude levar para a nova casa, que é bem menor.
- Mas, como assim, perguntou a garota: justo deixou aqui
coisas preciosas?
- Bem, parece que não faz sentido... mas faz, acredite.
Nisso o cão latiu e todos se voltaram para o jardim para ver
o motivo. Era a esposa do Dono, que ficou de passar e pegá-lo.
Deste modo o assunto ficou em suspense literalmente.
Na verdade, aquele Dono parecia uma pessoa diferente – não era
como outros proprietários, pela experiência do casal. E isso os intrigou desde
o início – e agora juntou o detalhe do quarto secreto – aliás, assim começaram
a chamá-lo.
Passaram-se alguns meses, era perto do Natal, e o Dono
passou rapidamente para desejar felizes festas e deixar um panetone caseiro,
que sua esposa fazia todos os anos.
Naquele dia só a mulher estava em casa – e não se atreveu a criar
uma conversa com o intuito de dar chance de perguntar do quarto secreto, mas,
nisso o Dono diz:
- Hoje vou ter que pegar alguma coisa do quarto, posso?
- Claro, respondeu ela admirada (e aliviada de talvez esta
ser a grande chance).
O Dono foi até o quarto e o abriu sem esforço – acendeu a
luz. E depois abriu a janela para entrar ar. Nisso a mulher passou em frente, e
pela fresta viu um lustre belíssimo, parecia de cristal e ouro, e nos fundos,
algo semelhante a uma estátua, parecia de um material caro. E parecia ser de um
homem, mas não com cara de homem, nem de mulher, pensando bem, concluiu em seus
pensamentos. Mas muito bela! Num tom azul safira.
Na verdade, ficou tão deslumbrada, que, sem perceber disse
em voz alta:
- Que linda!
Nisso o Dono saiu da parte não vista do quarto e sorriu:
- Ah, sim! É muito linda esta estátua! Um presente muito
especial.
- Presente?
- Sim. Foi durante uma viagem – ao pararmos junto a uma
Marmoraria, vimos esta estátua e ficamos tão fascinados que compramos sem
pensar. Algo não comum para nós.
O atendente da Marmoraria explicou então, que aquela estátua
alguém deixou em consignação para ser vendida. Um senhor, de aspecto oriental.
O Dono, ao sair, perguntou à Mulher se seria possível abrir
vez e outra a janela – ele notara mofo e isso não era bom. Ela, mais que
depressa, disse:
- Claro que sim. Será um prazer. Assim posso apreciar a
Estátua vez e outra.
Sorrindo, ele disse:
- Sim. Faça isso. Ela merece ser apreciada.
A Família ficou exultante em poder acessar o Quarto Secreto.
Fato é que além do Lustre e da bela Estátua, só havia duas Estantes de Mogno,
com alguns livros, que pareciam antigos e raros. Ah, e um belo Candelabro sobre
uma mesinha de mogno, com duas cadeiras.
Interessante foi que, a partir do momento em que tiveram
acesso ao Quarto, o interesse pelo mesmo passou a ficar menor, até ninguém mais
lembrar de entrar e apreciar a Estátua.
Menos a Mulher:
- Ela ficou fascinada pela Estátua e uma vez por semana
abria a porta e a janela para entrar luz e calor.
Um dia, cansada, decidiu sentar-se na cadeira e folhear um
dos livros da estante de mogno.
O nome do livro a deixou tão intrigada quanto a Estátua:
- O que não tem nome!
Ela olhou de novo, e não entendeu nada.
Nisso, para seu espanto absoluto, sentiu como se a Estátua a
estivesse observando – como se fosse viva.
Um frio percorreu sua espinha. Ela tremeu ligeiramente e
desviou o olhar para o livro, tentando entender o título. Mas, o susto mesmo
veio quando ela o abriu.
- Todas as folhas estavam em branco! Aqui e ali havia algum
desenho misterioso, que ela não sabia explicar, mas era só.
Achou tudo misterioso demais para seu gosto e saiu do quarto
e foi tomar um café e sentar na varanda.
Nem saberia como contar isso para alguém, por isso decidiu
não contar.
Na próxima semana ela não teve coragem de entrar no quarto.
Além do que, estava chovendo, e seria bom não entrar umidade.
Mas, na semana seguinte o sol estava radiante e ela não
resistiu e foi abrir a janela e a porta para arejar o quarto.
Nisso, ao se virar para a Estátua, ela piscou os olhos duas
vezes:
- Ela havia se movido de lugar?
Não pode, pensou.
Neste momento a Estátua sorriu – sim, sorriu! E como que por
encanto, lhe sussurrou:
- Não se assuste. Sou uma Estátua especial.
Ela olhou para a Estátua e não sabia o que fazer ou dizer.
- Você não precisa acreditar, apenas aceite que viu o que
viu, e que ouviu o que ouviu. Isso basta por ora, disse a Estátua num tom baixo,
mas claro.
Na semana seguinte, não sabendo mais como lidar com tal
assunto, ela convidou uma amiga antiga, a qual não via faz tempo, pois ela havia mudado de cidade.
A amiga parecia muito bem – emanava uma certa paz e um
sorriso calmo, por isso, reunindo toda a coragem possível, ela contou o caso do
Quarto Secreto.
A amiga, sorrindo, disse:
- Por que você não pergunta da próxima vez quem é a Estátua?
- Não sei se tenho coragem – parece que daí eu vou me taxar
de louca, falando com uma Estátua.
- Que seja, disse a amiga. Assuma esta pequena loucura e
veja o que acontece.
Ela achou que, de fato, o que teria a perder? Além do mais,
ela não saberia como lidar com o assunto sem ir adiante.
Então veio o dia em que ela reuniu coragem e ao entrar no
quarto e encontrar a Estátua sentada numa das cadeiras, ela não hesitou, e se sentou na outra cadeira e perguntou:
- Como pode uma Estátua falar, se mover, ser flexível como
se fosse feito de músculos e carne?
A Estátua, olhando-a profundamente nos olhos, disse:
- Enquanto os humanos ignorarem seu Real Ser, ele vive no interior de cada um como uma Estátua dura e sem vida. Mas quando alguém abre uma janela, uma fresta, ela tem a chance de se manifestar. E com isso estabelecer um diálogo, uma comunhão – e quanto mais vezes você vier me visitar e conversar, mais fácil será lhe explicar o que isso significa de fato.
A mulher entendeu intuitivamente este diálogo porque faz
tempo que ela se ocupava com alguns dos ditos mistérios, como:
- O ser humano conteria em si uma essência divina, ou algo
similar?
- E se sim, como fazer para acordar ou comungar com ela?
Passaram-se meses – e ela visitava agora quase todos os dias
a Estátua no Quarto Secreto, e os diálogos foram se aprofundando ao ponto de um
dia ela constatar que a Estátua havia desaparecido.
Primeiro ficou desesperada: Como explicar isso ao Dono? E
para onde ela foi? Ela fugira?
Então, de repente, ouviu um sussurro vindo do seu Coração:
- Estou aqui, dentro de ti! Este é meu Real Lugar. Não fora!
Ela deu um pulo de susto e disse sem pensar:
- Mas como? E o Dono? Ele vai vir uma hora te buscar ou
visitar?
- Não se preocupe com o Dono. Ele me deixou no quarto de
propósito, para vocês ficarem curiosos e se fazerem perguntas, até chegar no
ponto que agora estamos.
Ela não entendeu. O Dono fez tal de propósito? Então quem
era o Dono da casa?
- Ora, respondeu a Estátua Vivente:
- Ele sou eu em forma de Mensageiro.
A Família vivia feliz na casa. E todos estavam se
perguntando o que havia acontecido com a Mulher, pois parecia muito diferente nos
últimos tempos. Mais calma, mais gentil, mais introspectiva sim, mas nada que preocupasse.
Em verdade, aquilo acalmava a todos de forma sutil. E por isso, nem lembraram
de perguntar o motivo.
<<<>>>
A ideia de escrever um conto surgiu numa manhã, durante
minha prática matinal espiritual. Anotei no meu caderno o título, deixando a
página em branco (olhei: foi no dia 31.07.2026).
Interessante que hoje decidi ver uma live de Gangaji – foi muito
bom. A energia dela é como dessa Mulher (pensando bem): alguém integrado com a
Fonte, o Ser, a Estátua Vivente. Ela fala meio sussurrando... (isso me ocorre
agora). E uma frase ficou gravada em mim como um Mantra:
- Ela colocou a mão no coração e disse em dado momento:
- I’m here. I’m home!
E, ao fazer uma pequena pausa para ver se mudaria o final do
conto, ou apenas deixaria o último parágrafo de fora, lembrei do que pedi hoje cedo
a Ramana!
Foi a resposta!
- I’m here. I’m home!
Sempre estamos EM CASA, quando estamos CONECTADOS com o SER.
E se não estamos, nenhum lugar será nossa REAL CASA.
Sim, eu sei disso, e muitos que lerão este conto sabem a que
me refiro, MAS, o que muda, é que pedi hoje para Ramana about. E meus amigos
saberão do porquê este é um tema do momento.
Querem mais um detalhe? Hoje faz 3 anos que aluguei a atual
casa onde moro!
<<< fim >>>
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